Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de março de 2015

WW

 
Tá! A televisão era em preto-e-branco, quase não dava para ver, mas eu a achava realmente maravilhosa. Não sabia que o short dela tinha como estampa a bandeira dos Estados Unidos da América, apesar de identificar que havia estrelas bem definidas. Sei que ia para a escola com o cabelo em rabo-de-cavalo igual ao da Diana Prince, isso eu achava o máximo. Chegava em casa dava um giro, simulava tirar os óculos que não existiam, balançava a cabeça para soltar o cabelo e num passe de mágica virar super-herói. E como era linda a Lynda Carter! Fiquei triste quando descobri muito tempo depois, sem nem desconfiar da dublagem tosca, que ela não falava português. Nem assim entendi, eu que já sabia ler, porque os “emes” da mulher maravilha eram de cabeça para baixo.
 
 
 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Fumacinha do frio

 Era inverno e o friozinho matinal dava preguiça de ir à escola. Toooooinnnnn! Tocou o sinal. Já ninguém estava, só o frio. A menina entrou correndo pelo pátio e subiu as escadas com os cachinhos balançando. Parou atrasada no lance da escada para ver da janela a névoa de algodão que pairava no jardim. Foi aí que aconteceu. Com a boca entreaberta soltou, por acaso, o ar da respiração. Para sua surpresa, saiu uma fumacinha branca da boca, mágica. Sob encanto, soltou um riso largo. Nunca mais se esqueceu disso.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A boneca da menina



Era época de um Natal do início dos anos oitenta. A menina esperava pela promessa do presente que jamais recebera. Ouvira rumores de que finalmente a boneca chegaria para ela. Descobriu dias depois os pacotes embaixo da cama. Pensou que um deles, só podia ser a boneca que esperava há anos. Só podia ser a boneca linda, que andava sozinha movida a sucção de ar que ela viu na televisão. Não falou nada com a mãe, nem com ninguém. A partir desse dia quando todos se recolhiam para dormir ou quando não havia ninguém por perto, arrastava-se para debaixo da cama e se deitava por alguns minutos ao lado da caixa embrulhada. Não podia ver a boneca encoberta com papel de presente, mas se inebriava com o cheiro delicioso de plástico emborrachado que o pacote exalava. Esperou ansiosa o dia de Natal.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Poucas e boas das crianças








DU, DUDU e EDU
O menino tem quatro anos, já vem um irmãozinho. A mãe está na trigésima nona semana de gestação. Propõe ao garoto que dê um nome ao irmãozinho que vem chegando.
- Dudu. Ele responde depressinha.
- Meu filho Dudu não é nome, escolhe outro.
- Eu quero que seja Dudu.
- Então podemos colocar o nome de Eduardo.
- Não.
- Então tá.
- Olha, Eduardo é o nome e Dudu é o apelido. Quero dizer que o nome vai ser Eduardo e nós vamos chamá-lo de Dudu.
No dia seguinte o menino voltou chateadíssimo da escolinha. É que um coleguinha disse que vai chamar o irmãozinho de Edu. Ficou arrasado, chorou. A mãe, rainha do lar, deu um jeito na situação.
- Amor, fala para o seu coleguinha que ele pode até chamar o seu irmãozinho de Edu, só que ele não vai entender, porque aqui em casa todo mundo vai chamá-lo de Dudu.
Pronto, problema resolvido.


COCA-COLA NÃO É REFRIGERANTE
Quando Melissa tinha três anos, eu e minha irmã sempre perguntávamos: o que você vai comer de gostoso hoje? Para ouvirmos sempre a resposta no diminutivo: arrozinho, feijãozinho, batatinha e carninha. Em um dia comum, após minimizar as respostas ela pediu: tia me dá refrigerante? Busquei um copo com coca-cola e ofereci a ela, que respondeu: “não tia, coca não, quero re-fri-ge-ran-te”, apontando para a garrafa de outro refrigerante colorido em cima da mesa.


PEIXINHO DOURADO
Fernanda, sempre que viaja com os pais para o interior deixava o aquário redondo com seus três peixinhos coloridos para tia Lúcia tomar conta. Um dia, antes de uma viagem Tia Lúcia, falou de brincadeira: Fernandinha, se eu ficar com fome posso comer um peixinho? Ela pensou um pouco para responder e disse: iiiih tia, só tem três, um para mim, um para meu pai, um para minha mãe.



A VIAGEM
Num final de semana eu ia para a casa da minha mãe, que morava no interior de São Paulo. No ônibus, sentou-se ao meu lado um garotinho, que tinha cerca de cinco anos. Eu sempre na janela, hábito que abandonei mais tarde, ele no corredor. No decorrer da viagem percebi seu esforço de avançar sobre mim com o objetivo de alcançar a janela. Ofereci a troca de lugares e com um sorriso nos lábios ele prontamente aceitou. Enquanto eu iniciava meu cochilo, que nesta viagem costumeira, já tinha tempo e local certos, ele olhava fixamente a paisagem da janela. Minutos depois, com a paisagem repetitiva da Via Dutra, o sono dele também chegou. Ele me disse: tia se minha mãe for descer do ônibus você me avisa? Balancei a cabeça com um sim.


CHAVES, TODOS OS AMIGOS OLHANDO PARA A TV
A mãe nem era religiosa, não frequentava nenhuma igreja ou templo, mas já percebera que o filho, ainda pequeno, com quatro anos gostava de rezar. Só não ia a missa porque não tinha quem o levasse. Surpreendeu-se no dia que ele afirmou que Jesus existe mesmo. Porque filhinho, ela perguntou intrigada. Ele respondeu que tinha pedido que fizesse o programa do Chaves voltar a passar na televisão e que ele tinha prontamente atendido sua prece.


FÉRIAS NO AÇUDE
Minha prima, com três anos, gostava de brincar no açude do sítio onde a família passava férias. Na água, chorava para ficar sozinha, não queria que ninguém a segurasse. Ignorando a mãe a segurava firme. Tempos depois, já no fim das férias, perguntei para a menina: gostou de passear no sítio? Gostei, aprendi a nadar. É mesmo?! Retruquei surpresa. É fácil, ela me disse, é só bater a mão e o pé e gritar, me solta, me solta, me solta.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Formatura da 8ª série


Durante o intervalo para o cafezinho no trabalho, minha amiga Angela contava sobre a formatura da sobrinha, de como foi emocionante estar ali e ouvir os discursos e homenagens. Suas palavras me fizeram buscar no baú empoeirado da memória o dia da minha formatura da oitava série do primeiro grau, agora chamada nono ano do ensino fundamental.
Foi minha única celebração de formatura, porque das outras, por motivos diversos não quis participar, escolha que com a maturidade desabrochada, muitos anos mais tarde, ainda questiono se foi a melhor.  Penso que meu pai, que perdi poucos anos depois, teria gostado de participar da formatura do segundo grau (ensino médio). E da faculdade, faz falta umas fotos antigas, se não para esfregar na cara da vida, pelo menos para mostrar aos meus pequenos daqui a alguns anos, e quem sabe, daríamos risada juntos, comentando os modelitos da época, contando casos e coisa e tal. A mocidade tem dessas coisas, de mandar para o inferno, tudo o que é poesia que não tem sentido no momento, mas a oportunidade perdida é como o vento, que dá sinal soprando os cabelos, e passa.
Enfim, fui à minha formatura da oitava série, com direito a baile no final. Fui bonita, com um vestido branco que eu mesma desenhei para a costureira. Subi no palco determinada, segurando meu breve discurso de oradora da turma e li com voz trêmula o texto que escrevi.
O texto ingênuo retrata bem que eu não tinha ideia do que a vida traria para mim e meus amigos de bairro, mas transborda em idealismo e perseverança de uma cabeça adolescente, cheia de sonho infanto-juvenil e perspectiva. Quando cheguei com a folhinha datilografada nas mãos, a diretora da escola não quis aceitar, talvez pela ingenuidade que o texto transmitia ou pela carência de formalidade, mas a orientadora pedagógica, não permitiu que fosse descartado, disse que era espontâneo, passava jovialidade, e o principal, tinha sido escrito por uma aluna da escola, depois, puxou a folha da minha mão e escreveu os cumprimentos introdutórios que faltavam com caneta vermelha.
O tempo amarelou a folhinha do discurso e a vida desviou nossos caminhos, mudou de rumo muitas vezes, alguns colegas sequer puderam optar por outra formatura, simplesmente não estudaram. E quanto a mim, percebo como foi importante escrever o texto, estar ali para receber o canudinho, a atitude da orientadora e celebrar o momento.



...

 
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
                                                                                                                    (Clarice Lispector)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O coração do homem-bomba



 

      Na aldeia onde Hassan nasceu, não há crianças jogando bola, nem animais soltos nos quintais. No tempo em que era um menino tudo era difícil, não havia brinquedos, a comida era simples, mas havia belos rituais e festas em que as moças jovens dançavam discretamente, envoltas em tecidos coloridos. Podia-se correr livremente pelos campos e rolar pela colina empoeirada, esmagando as flores modestas daquelas encostas. 
      Na aldeia tinha uma bola de futebol, velha e remendada, amarelada da poeira baladi¹, que era disputada pé a pé, chute a chute, por todos os meninos daquele lugar. Esta bola, o futebol daqueles dias e as danças das moças de lá, acompanharam as lembranças de Hassan talvez por toda a sua vida. Nos tempos sem paz, quando já não se podia caminhar livremente nos campos minados, e não havia comida suficiente, nem rituais, nem festas e véus coloridos, era nestas lembranças que ele buscava acalanto.
     Num dia de vento gelado e sol brilhante, quando Hassan voltou do pasto com as cabras, encontrou sua aldeia devastada, a escola queimada e os campos incendiados. Ele correu para casa, no trajeto encontrou muitos fugindo, outros choravam sentados pelo caminho, mas em casa não encontrou ninguém, já imaginava que seu pai era morto, mas onde estaria sua mãe, a irmã e as outras famílias? 
    O grito de Hassan ecoou pelos quatro cantos, da sua boca urrava um monstro sombrio, que adormecido acordava, que saltavam as veias de sua garganta, só ele não podia se ouvir. Ele, com seu monstro de novo adormecido, passou a noite estirado no quintal, imóvel, observando as estrelas daquele céu baladi. Do seu corpo, o único movimento era o das lágrimas, que lhe alagavam a retina e transbordavam pela face.
   A vida precisava de um sentido, viver na aldeia sem sua família, sem comida, seria impossível, além do mais, ele sabia que os campos dali eram agora perigosos, não se podia caminhar livremente na poeira da colina. Dias depois, faminto e desolado, ainda sem entender o que se passou na aldeia, e sem notícias de sua mãe, Hassan foi recolhido em um caminhão, cheio de meninos, que o levou junto com os outros para um madraçal longe dali.
  Os meninos estudaram, tiveram um treinamento rigoroso, aprenderam a guerrear e principalmente a se destituir de suas vidas, por uma causa dita soberana, mas distante e oposta à simplicidade de suas aldeias. Alguns se rebelaram contra os homens que destruíram suas famílias e crenças, outros se resignaram, mas Hassan, apenas se tornou indiferente. Sua única indignação era não poder respeitar as tradições de seus pais e avós, não que fosse religioso, ao contrário, alimentou duras críticas às religiões, mas porque aqueles costumes lhe traziam boas lembranças de casa. 
   Anos depois, em uma sexta-feira que antecedia o Ramadã, os jovens e meninos reunidos no pátio, esperavam o momento da oração diária, quando algo inusitado aconteceu. No altar improvisado, o líder anunciou que algo extraordinário sucederia, era chegada a hora de retribuir a todo o bem feito àqueles meninos outrora abandonados e que agora, eram dignos de servir à grande causa, e ainda teriam em dobro todas as riquezas desse mundo, num outro diferente deste.
   Após sua fala exaltada, o líder ergueu os braços e mandou que trouxessem o saco com os nomes, haveria um sorteio.  Perplexo, Hassan teve um presságio, suas mãos suaram e seu coração disparou, por um momento os sentidos lhe falharam, e uma sede absurda ressecou sua garganta e seus lábios. Ele era um jovem crítico, sabia o que aquilo significava e apesar da indiferença com que viveu durante todos esses anos, não compartilhava daqueles anseios. 
  Ele não sabia o que o fazer de uma vida sem sentido, mas sabia que aquilo que se propunha ele não queria. Sentia-se incapaz de reproduzir em um bairro movimentado da cidade, o mesmo ato que anos atrás praticaram na sua aldeia. Ele ouvia os batimentos do seu coração e com as pernas bambas, teve medo do seu azar.O líder, com braço esquerdo para trás e postura de general, enfiou sua mão direita no saco, que parecia pequeno para ela. Com o entusiasmo de apresentador de show de calouros puxou um papelzinho, anunciando em seguida: “O sorteado foi Has...san, da província do Sul”. 
  Os olhos de Hassan lacrimaram, mas ele tinha que ser forte, talvez, esse fosse o sentido da vida que lhe foi poupada quando menino, e era chegada a hora dele a entregar definitivamente. Imediatamente os guardas o acompanharam até uma cela em que ele permaneceria isolado até o grande dia.  Ali lhe seriam transmitidas todas as orientações sobre a ação devasta. 

 Um sentimento misto de resignação e desespero o dominou, mas os preparativos teriam que começar. Tudo foi minuciosamente planejado, ele iria com o “presente” até a pequena praça da Avenida Central, conversaria com o pipoqueiro, compraria uma pipoca, e ao receber a mensagem no celular, caminharia para ala oposta. No momento em que a última criança descesse do microônibus, ele detonaria, parecia fácil. Durante o período de isolamento nada lhe foi dito, mas sabia que entre as crianças, havia uma em especial.
  Uma semana depois, próxima a hora do almoço ele chegou na praça com um embrulho nas mãos. Tinha no tornozelo uma fita pela qual seus passos eram monitorados e na cintura, um discreto emaranhado de fios que ele detonaria na sequência. Era um caminho sem volta.
 O coração de Hassan palpitava forte e ele achou que podia ouvi-lo, assustado, olhou para os lados e suspeitou que os outros também o pudessem escutar, nesse momento o pavor que comprimia seu estômago se transformou em uma vergonha avassaladora, que invadiu seu rosto e sua alma. Sentia medo, mal podia controlar a tremedeira de suas mãos e os enjôos de pavor.
   Na confusão da praça ele observava uma cesta de fruta que parecia andar sozinha. A mulher que a levava na cabeça não era forte, a cesta quase a escondia. Ele viu quando um menino ao se aproximar pelas costas puxou uma a fruta e saiu correndo. A mulher se desequilibrou e algumas maçãs caíram, a cena das frutas coloridas rolando pelo chão chamou–lhe a atenção. Seus olhos observavam as mãos delicadas da vendedora de frutas, que de joelhos tentava recuperar as maçãs entre os passos da multidão. Seus olhos percorreram o corpo dela e ele sentiu um arrepio, algo diferente de tudo que conhecia. Seu olhar passou pelos seios, pescoço, boca, e quando olhou nos olhos, surpreendeu-se com o olhar dela.
   Os segundos em que os olhares se cruzaram foram para ele uma eternidade, como se o tempo e tudo ao redor parasse. Os olhos de mel, amendoados e cílios longos fizeram com que ele, de novo, sentisse o coração palpitar. Desejou que um vento forte arrancasse o véu para que ele pudesse ver os cabelos dela. Ele se deu conta da vida de privações que levava e que não conhecia os sentimentos e sensações de um jovem. Logo recebeu uma mensagem no celular, instantaneamente o pavor voltou a castigar seu corpo. 
   Ele começou a caminhar lentamente para a ala oposta à praça, passou pelo microônibus e pelas crianças, cruzou a rua, caminhou uns quinhentos metros, retirou a tornozeleira e jogou na lata de lixo, entrou rapidamente em uma viela, depois em outra, e outra, pensando que já estariam atrás dele. De longe, avistou uma vala. Afundou os pés no esgoto, que lhe alcançou o tornozelo, deixou o presente na lama putrefata junto com os fiozinhos que estavam na cintura. Assegurou que não havia ninguém por perto, e da esquina, assistiu a explosão. Quando escureceu, Hassan saiu debaixo da montanha de restos de vegetais e caixotes da feira e fugiu em direção ao Sul.
    Em um dia de céu limpo e noite estrelada, Hassan chegou às ruínas da casa onde viveu com a família. A aldeia não existia mais, mas os campos e as flores delicadas ainda nasciam por ali e de longe era possível avistar as colinas de poeira amarela. À noite estirado no quintal, imóvel, observando as estrelas, lembrou dos meninos do madraçal e chorou lágrimas de esperança. 
    Na imagem vertiginosa dos sonhos, os meninos do madraçal jogavam com a velha bola nos campos empoeirados, repletos de fragmentos esvoaçantes de dente-de-leão, soprados por qualquer criança. Os meninos da aldeia rolavam pelas colinas amarelas, esmagando as flores pequenas. Hassan acordou eufórico. Quatro meses depois ele conseguiu cruzar a fronteira para os países do Leste. Foi ser livre, dente-de-leão soprado pelo vento. 


 ...




para os meninos  de todos os sertões...



¹ Baladi  em árabe significa "meu país, minha terra natal”
² Foto dos meninos afegãos jogando bola (Maurício Lima/AFP; foto do pássaro do arquivo pessoal.